O
Papa convocou um Ano Sacerdotal (19/06 de 2009 a 19/06/2010),
por ocasião do 150º aniversário da morte
do santo Cura de Ars, a quem proclamará como padroeiro
de todos os sacerdotes do mundo. O tema escolhido para o Ano
Sacerdotal é o de «Fidelidade de Cristo, fidelidade
do sacerdote». Está previsto que o Papa o abra
com uma celebração de Vésperas, em 19 de
junho, solenidade do Sagrado Coração de Jesus
e Dia de Santificação Sacerdotal.
Durante este Ano jubilar, está prevista a publicação
de um «Diretório para os Confessores e Diretores
Espirituais», assim como de uma «recopilação
de textos do Papa sobre os temas essenciais da vida e da missão
sacerdotais na época atual». O objetivo deste ano
é, segundo expressou o próprio Papa hoje aos membros
da Congregação para o Clero, «ajudar a perceber
cada vez mais a importância do papel e da missão
do sacerdote na Igreja e na sociedade contemporânea.
Homilia
do Papa ao Inaugurar o Ano Sacerdotal
Queridos irmãos e irmãs:
Na antífona do Magnificat, dentro de pouco, cantaremos:
“O Senhor nos acolheu em seu coração”,
“Suscepit nos Dominus in sinum et cor suum”. No
Antigo Testamento, fala-se 26 vezes do coração
de Deus, considerado como o órgão da sua vontade:
em referência ao coração de Deus, o homem
é julgado. Por causa da dor que seu coração
sente pelos pecados do homem, Deus decide o dilúvio,
mas depois se comove diante da fraqueza humana e perdoa. Depois,
há uma passagem do Antigo Testamento em que o tema do
coração de Deus se expressa de maneira totalmente
clara: encontra-se no capítulo 11 do livro do profeta
Oseias, em que os primeiros versículos descrevem a dimensão
do amor com que o Senhor se dirige a Israel na aurora de sua
história: “Quando Israel era menino, eu o amei
e do Egito chamei meu filho” (v. 1). Na realidade, à
incansável predileção divina, Israel responde
com indiferença e inclusive com ingratidão. “Mas
quanto mais os chamava, tanto mais eles se afastavam de mim”
(v. 2). No entanto, Ele não abandona Israel nas mãos
dos inimigos, pois “meu coração se contorce
dentro de mim, minhas entranhas comovem-se” (v. 8).
O coração de Deus se estremece de compaixão!
Na solenidade do Sagrado Coração de Jesus, a Igreja
apresenta este mistério à nossa contemplação,
o mistério do coração de um Deus que se
comove e oferece todo o seu amor à humanidade. Um amor
misterioso, que nos textos do Novo Testamento nos é revelado
como incomensurável paixão de Deus pelo homem.
Não se rende diante da ingratidão, nem sequer
diante da rejeição do povo que Ele escolheu; mais
ainda, com infinita misericórdia, envia ao mundo seu
Filho unigênito para que carregue sobre si o destino do
amor destruído; para que, derrotando o poder do mal e
da morte, possa restituir a dignidade de filhos aos seres humanos
escravizados pelo pecado. Tudo isso com um preço muito
caro: o Filho unigênito do Pai se imola na cruz: “Tendo
amado os seus que estavam no mundo, amou-os até o fim”
(cf. João 13, 1). Símbolo deste amor que vai muito
além da morte é seu lado atravessado por uma lança.
Neste sentido, uma testemunha ocular – o apóstolo
João – afirma: “Um dos soldados traspassou-lhe
o lado com uma lança e imediatamente saiu sangue e água”
(cf. João 19, 34).
Queridos
irmãos e irmãs: obrigado, pois, respondendo ao
meu convite, viestes em grande número a esta celebração,
pela qual entramos no Ano Sacerdotal. Saúdo os senhores
cardeais e os bispos, em particular o cardeal prefeito e o secretário
da Congregação para o Clero, junto a seus colaboradores,
e o bispo de Ars. Saúdo os sacerdotes e seminaristas
dos colégios de Roma; os religiosos e religiosas e a
todos os fiéis. Dirijo uma saudação especial
a Sua Beatitude Ignace Youssef Younan, patriarca de Antioquia
dos Sírios, que veio a Roma para visitar-me e manifestar
publicamente a ecclesiastica communio (comunhão eclesial,
N. da T.), que lhe foi concedida.
Queridos
irmãos e irmãs: detenhamo-nos para contemplar
juntos o Coração traspassado do Crucificado. Mais
uma vez, acabamos de escutar, na breve leitura tomada da carta
de São Paulo aos Efésios, que “Deus, que
é rico em misericórdia, pelo grande amor com que
nos amou, quando estávamos mortos em nossos delitos,
nos vivificou juntamente com Cristo pela graça fostes
salvos! – e com ele nos ressuscitou e nos fez assentar
nos céus, em Cristo Jesus” (Efésios 2, 4-6).
Estar
em Cristo Jesus significa já sentar-se nos céus.
No Coração de Jesus se expressa o núcleo
essencial do cristianismo; em Cristo nos é revelada e
entregue toda a novidade revolucionária do Evangelho:
o Amor que nos salva e nos faz viver já na eternidade
de Deus. O evangelista João escreve: “Deus amou
tanto o mundo, que entregou o seu Filho único, para que
todo o que nele crê não pereça, mas tenha
a vida eterna” (3, 16). Seu Coração divino
chama então nosso coração; convida-nos
a sair de nós mesmos e a abandonar nossas seguranças
humanas para fiar-nos d’Ele e, seguindo seu exemplo, a
fazer de nós mesmos um dom de amor sem reservas.
Se é verdade que o convite de Jesus a “permanecer
em seu amor” (cf. João 15, 9) se dirige a todo
batizado, na festa do Sagrado Coração de Jesus,
Dia de Santificação Sacerdotal, este convite ressoa
com maior força para nós, sacerdotes, em particular
nesta tarde, solene início do Ano Sacerdotal, que convoquei
por ocasião do 150º aniversário da morte
do Santo Cura de Ars. Vem-me imediatamente à mente uma
bela e comovedora afirmação, referida no Catecismo
da Igreja Católica: “O sacerdócio é
o amor do Coração de Jesus” (n. 1589). Como
não recordar com comoção que diretamente
desse Coração manou o dom do nosso ministério
sacerdotal? Como esquecer que nós, presbíteros,
fomos consagrados para servir, humilde e autorizadamente, ao
sacerdócio comum dos fiéis? Nossa missão
é indispensável para a Igreja e para o mundo,
que exige fidelidade plena a Cristo e uma incessante união
com Ele; isto é, exige que busquemos constantemente a
santidade, como fez São João Maria Vianney. Na
carta que vos dirigi por ocasião deste ano jubilar especial,
queridos sacerdotes, eu quis sublinhar alguns aspectos que qualificam
nosso ministério, fazendo referência ao exemplo
e ao ensinamento do Santo Cura de Ars, modelo e protetor de
todos os sacerdotes, em particular dos párocos. Espero
que este meu texto vos sirva de ajuda e estímulo para
fazer deste ano uma ocasião propícia para crescer
na intimidade com Jesus, que conta conosco, seus ministros,
para difundir e consolidar seu Reino, para difundir seu amor,
sua verdade. E, portanto, “a exemplo do Santo Cura de
Ars, deixai-vos conquistar por Ele e sereis, também vós,
no mundo de hoje, mensageiros de esperança, reconciliação
e paz”.
Deixar-se
conquistar totalmente por Cristo! Este foi o objetivo de toda
a vida de São Paulo, a quem dirigimos nossa atenção
durante o Ano Paulino, que já está terminando;
esta foi a meta de todo o ministério do Santo Cura de
Ars, a quem invocaremos particularmente durante o Ano Sacerdotal;
que este seja também o principal objetivo de cada um
de nós.
Para
ser ministros ao serviço do Evangelho, é certamente
útil e necessário o estudo com uma atenta e permanente
formação pastoral, mas é ainda mais necessária
essa “ciência do amor”, que só se aprende
de “coração a coração”
com Cristo. Ele nos chama a partir o pão do seu amor,
a perdoar os pecados e a guiar o rebanho em seu nome. Precisamente
por este motivo, não podemos nos afastar nunca do manancial
do amor que é seu Coração atravessado na
cruz.
Somente
assim seremos capazes de cooperar eficazmente com o misterioso
“desígnio do Pai”, que consiste em “fazer
de Cristo o coração do mundo”, desígnio
que se realiza na história na medida em que Jesus se
converte no Coração dos corações
humanos, começando por aqueles que estão chamados
a estar mais perto d’Ele, os sacerdotes. As “promessas
sacerdotais” que pronunciamos no dia da nossa ordenação
e que renovamos cada ano, na Quinta-Feira Santa, na Missa Crismal,
voltam a nos recordar este constante compromisso. Inclusive
nossas carências, nossos limites e fraquezas devem nos
conduzir ao Coração de Jesus. Se é verdade
que os pecadores, ao contemplá-lo, devem aprender a necessária
“dor dos pecados” que volta a conduzi-los ao Pai,
isso se aplica ainda mais aos ministros sagrados. “Como
esquecer que nada faz a Igreja, Corpo de Cristo, sofrer mais
que os pecados dos seus pastores, sobretudo daqueles que se
convertem em “ladrões de ovelhas” (João
10, 1ss), seja porque as desviam com suas doutrinas privadas,
seja porque as atam com os laços do pecado e da morte?
Também para nós, queridos sacerdotes, aplica-se
o chamado à conversão e a recorrer à Misericórdia
Divina, e igualmente devemos dirigir com humildade incessante
a súplica ao Coração de Jesus para que
nos preserve do terrível risco de causar dano àqueles
a quem devemos salvar.
Há
pouco, pude venerar, na Capela do Coro, a relíquia do
Santo Cura de Ars: seu coração. Um coração
inflamado de amor divino, que se comovia frente ao pensamento
da dignidade do sacerdote e falava aos fiéis com tons
tocantes e sublimes, afirmando que “depois de Deus, o
sacerdote é tudo!... Ele próprio não se
entenderá bem a si mesmo, senão no céu”
(cf. Carta para o Ano Sacerdotal). Cultivemos, queridos irmãos,
esta mesma comoção, seja para cumprir nosso ministério
com generosidade e dedicação, seja para custodiar
na alma um verdadeiro “temor de Deus”: temor de
poder privar de tanto bem, por nossa negligência ou culpa,
as almas que nos foram confiadas, ou de poder causar-lhes dano.
Que Deus não o permita! A Igreja tem necessidade de sacerdotes
santos, de ministros que ajudem os fiéis a experimentar
o amor misericordioso do Senhor e sejam suas testemunhas convictas.
Na adoração eucarística, após a
celebração das Vésperas, pediremos ao Senhor
que inflame o coração de cada presbítero
com essa caridade pastoral capaz de fundir seu “eu”
no de Jesus sacerdote, para assim poder imitá-lo na mais
completa entrega de si mesmo. Que nos obtenha esta graça
a Virgem Mãe, de quem amanhã contemplaremos com
viva fé o Coração Imaculado. O Santo Cura
de Ars vivia uma filial devoção por ela, até
o ponto de que, em 1836, antecipando-se à proclamação
do dogma da Imaculada Conceição, já havia
consagrado sua paróquia a Maria “concebida sem
pecado”. E manteve o costume de renovar frequentemente
esta oferenda da paróquia à Santa Virgem, ensinando
aos fiéis que “basta dirigir-se a ela para ser
escutados”, pela simples razão de que ela “deseja
sobretudo ver-nos felizes”. Que Nossa Senhora, nossa Mãe,
nos acompanhe no Ano Sacerdotal que iniciamos hoje, para que
possamos ser guias firmes e iluminados para os fiéis
que o Senhor confia aos nossos cuidados pastorais. Amém!